25 de outubro de 2011

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Bocas roxas de vinho,
Testas brancas sob rosas,
Nus, brancos antebraços
Deixados sobre a mesa:

Tal seja, Lídia, o quadro
Em que fiquemos, mudos,
Eternamente inscritos
Na consciência dos deuses.

Antes isto que a vida
Como os homens a vivem,
Cheia de negra poeira
Que erguem das estradas.

Só os deuses socorrem
Com seu exemplo aqueles
Que nada mais pretendem
Que ir no rio das coisas.

Ricardo Reis - Odes e Outros Poemas

Olha

Um cheiro
que recorda
não sei bem o que.
Simples saudosismo

Mas, olha,
vai de doce a amargo
a brisa, bate e dói,
e eu gosto mesmo assim.

Leve nostalgia...

As coisas tem sido alvo
de alguma tentativa
de registro -
do que eu quis ser,
e nao fui.

É, se insinua
esse tal saudosismo.
Sutil.

24 de outubro de 2011

devaneios epistemológicos

A visão afasta -
ofusca

Nos colocamos fora
e procuramos conhecer
o que não nos pertence,
o que nunca esteve aqui.

Separados...
quanta audácia!

Artes visuais,
virtuais.

O imo da natureza
dele nos distanciamos.
Íntimo este que está em tudo:
Ubíquo! - (tenho verdadeira adoração por essa palavra!)

O que estamos fazendo por aqui mesmo?
Ah, é verdade:
aprendendo a aplicar,
é isso...

Porque não somos modistas?

17 de outubro de 2011

Sede.
Real, concreta
inusitada
que escapa
e nao se nomeia.

Afinal, palavras
o que são?

meteoros caindo
e passando.

15 de outubro de 2011

oscilação

sístole-diástole
retém-expulsa
prende-solta

segura

agarra-libera
sustenta-solta
controla-perde

desobriga

inspira-expira
arrepio-calafrio
segura-agarra

com força

toca-desata
fere-impele
chora-segura

e não vai embora.

desculpa, estranho!

Silêncio insano
ruído branco
vazio sólido

corta pele, abre abismos
desloca desejos.

NÃO!

Volta a ser doce,
retorna ao princípio.

Ou acho que tudo está já sujo.

14 de outubro de 2011

silêncio

E com a mágoa
vem ainda
alguma coisa que faz falta.

Não sei o que,
e se ainda existe.

Mas está aqui, agora.

essa noite

Pedindo pra descascar
pedindo para não escapar
pelo telhado
rolando.
Entre os dedos
vazando.
Entre as pernas
divagando.
nas palavras,
chapei.

E no vermelho
de tantos olhos
serpentinas e velórios.
Tantas coisas.
Amarelos, caramelos, cogumelos
Os elos?

graveola

Notoriamente tosco.
Nós,
os fios - tênues
em prantos.

Mas, no entanto...
É quase difícil
pintar as palavras
em silêncio - daqui.

caderno

Abro pela primeira vez
na última
e o que se espera
- ou o que me espera? -
é o retrato, sim, em branco e preto
pintado à mão
dos namorados de ontem.

E assim mexem os pés
com pontos - sem fim.

Dedos, pentes, lentes
para melhor te enxergar
e além disso te pentear,
perguntando assim:
quem é você?