15 de outubro de 2013

uma pedra:
que não se separava do mar.
ele batendo nela incessantemente.

ela torcendo pela maré a baixar
ou pela ressaca, que a inundaria.

enquanto aqui pedimos tempo:
elaborar, silenciar, simbolizar
embebidos no suor alheio.

alheios a tudo:
con-fundidos.
Gosto de catar varetas.
alinho, invento formas, escolho algumas...

Faço isso
pra não fazer coisa qualquer.

Pra remediar o tempo:
que já não me convém.
Se ainda não era eu
é que meu dia chegaria.

O dia em que sairia
colorida, travestida
de mulher.

Na condição de abstinência,
do que é ausência,
ex-sistência.

Marianna

A menina tinha um olho,
não dois.

Era preto, o olho da menina
e não enxergava quase nada.

Agora o olho da menina
foi esculpido numa ponte

e já não sabemos
o que há depois do rio.

Talvez terra.

Olho no ombro não enxerga.
virou fetiche, o olho.

olhos negros

Já não posso
tudo ver.

Aqueles dias passaram
os da fantasia
que eu inteira seria:
inteira papai,
inteira mamãe.

Mas minha letra ficou feia
e tudo não podia ser.

Tirei nota baixa
na matéria
que eu inteira sabia.

Sabia nada: forcei os olhos
e doeu.

primavera, não

Nesses longos dias de hoje
pra sorrir sério:
só de olhos fechados.

Dos outros se faz graça
se faz farsa
se esgarça.

Os olhos fechados
de qualquer cor
pode-se sorrir
pode-se dormir
podem se beijar.

Nesses dias de hoje
eu até tento
mas acabo
mas falta
mais cores.


Mulher que me sinto
por alguns que se emaranharam
se incrustraram
em limites perenes: elas e eles.

E hoje só,
ou nem a mim posso recorrer.

Hoje só pedaços.
sou pedra, és mar.

a ti falta constância,
a mim movimento.