1 de junho de 2010

Um homem sem camisa e uma garrafa na mão. Aproximados 50 anos explícitos pelo cabelo grisalho e a pele judiada pelo ar nesse tempo respirado.

Ar de São Paulo.

No meio da multidão vinha o homem, seguindo o fluxo do meu contrafluxo;
meu e do meu fluxo.
À minha direita abre-se um vazio,
formado pela multidão que andava de um lado pro outro - mas nao ali:
uns andavam pr’álgum lugar,
uns pra lugar nenhum,
uns andavam pros outros,
outros andavam pra ninguém.
O vazio não era circular, havia em seu centro nada.
Fosse uma poça, uma pedra, ou o lixo. As sobras, restos da multidão, a mistura que tomava as ruas.

Ilusão.

Mas desviavam.

O homem em sua morenisse, sacola na outra mão.
A expressão de espanto – ou não. Não chega a tanto.
Surpresa ou um espanto quase irônico.
Segue olhando para baixo. Olhos atentos ao ar.
E à esmola.
O corpo reclinado, a perna esticada e as mãos à frente.
Um “opa” com a boca.
Silencioso.
E um pulo.
Atravessando o oco criado pela inexistência
na multidão.

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